quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

"O sabonete de alcatrão"
Há coisas que não precisam de explicação, é a lei natural do pensamento.
M. homem que respeito, mas que ainda não passei de um seu conhecido, quando nos cruzamos pelos dias com cor ou sem cor.
Sobe ladeira acima, desce ladeira abaixo, faça sol, faça chuva, vento ou neve. Esguio de uma resistência física invejável, nunca sei qual é o seu objetivo de vida. Ninguém sabe, M. é um homem que as pessoas apenas têm pena da sua infortunada saúde psíquica.
Diz o povo que era um homem muito inteligente, esteve no ensino superior, mas algo se passou na sua cabeça que nunca ninguém me soube explicar ao certo.
Isto é só para situar uma situação de pequenas coisas que fazem toda a diferença. Todos nós temos momento um pouco psicóticos, e quem o negar está a enganar-se a si mesmo. Ninguém é detentor das suas faculdades mentais a toda a hora, porque se assim fosse, como se explicaria crimes passionais, abusos sexuais, etc..
Eu mesmo, considero-me um psicótico em franca recuperação, não violento, mas sensível aos pequenos gestos que fazem toda a diferença.
Existe um preconceito, ou cliché, como quiserem rotular, na sociedade, tanto nas grandes cidades como nas pequenas vilas e aldeias. É importante que possamos compreender o nosso semelhante, tal qual como ele é, sem rodeios e pensar que todos temos os nossos calvários a percorrer.
M. que por vezes até fala comigo, mesmo eu fazendo um esforço para o entender, nem tudo fica esclarecido, porque estou num estado que não tenho acesso ao seu pensamento psicótico. Mas muita coisa eu compreendo, e aprendo com M. aquilo que não poderia aprender com pessoas ditas normais da sociedade.
Isto tudo para dizer que M. depois de ter subido mais uma vez a ladeira, embalado, chegou perto de mim e deixou-me um sabonete alcatrão, novo, na sua caixinha, por usar, e disse: - Não uso, não gosto, podes ficar com ele…
Eu fiquei a olhar para o sabonete de alcatrão, que adoro, e deixei ficar sobre a mesa de pedra onde ele tinha deixado. Mais tarde, não tendo a certeza que aquele sabonete era para mim, e se fazia bem em ficar com ele, voltei a perguntar-lhe: - M. O sabonete é para mim? Respondeu-me: - Sim podes ficar com ele.
Quantas vezes não gostava de comprar um sabonete de alcatrão e não tinha dinheiro para o comprar… Hoje voltei a lavar-me com o sabonete de alcatrão que M. me tinha dado, e no meio do duche quente, pedi a Deus que iluminasse a sua vida para um estado sadio.
Ninguém pode dizer que não precisa deste ou daquele, as circunstâncias da vida mostram que precisamos de todos, todos somos um só. OBRIGADO M.
Q. A.