segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Capitulo XXI - A Carta


Neste caminhar ao encontro do “Supremo”, registo acontecimentos da minha aldeia, por adoção. Descubro tradições centenárias, como o fumeiro e o arranjar das carnes para fazer os saborosos enchidos da D.ª Judite, esposa do meu vizinho Tio Franklin, que se preocupa com o meu bem-estar no lugar, desde o dia que lá cheguei. Gente de trabalho árduo, gente de uma simplicidade fora de comum. Podia falar de toda a gente do lugar, mas seria um pouco maçudo. Posso dizer, sem meias palavras, que amo esta gente que me recebeu com as duas mãos de Deus.
Quando tento fazer uma comparação dos citadinos e da gente da serra, vejo que não existe comparação possível, é uma outra forma de estar na vida e na comunidade. É evidente que também encontro gente boa na cidade, mas não é a mesma coisa. Também eu fui um citadino em tempos, e comportei-me como tal, mas algo lá bem acima me disse que seria na serra que encontraria o meu equilíbrio de ser em harmonia com o mundo. O mundo que idealizei e concretizei para a minha vida.
 O constante falar da vida alheia que sempre encontrei na cidade provinciana, não acontece nesta vila encantada no alto da serra. São mundos distintos de desbravam conceitos de vida completamente diferentes. Pena que os jovens não façam nada por preservar o que de mais belo tem a vila e seus lugares. Mas um dia quando só houver uns poucos resistentes nos lugares da vila, vêm os curiosos jornalista, cosmopolitas, num acervo de caricatura levar às cidades imagens esquecidas no tempo.
 Poderemos ser diferentes na forma de estar com o meio ambiente, de desfrutar momentos únicos, mas teremos que fazer mais além disso; lutar por um lugar reconhecido como grande qualidade de vida, onde a revolução industrial não chegou a entrar. Poderemos engrandecer homens e mulheres descendentes de um povo, deixado ao esquecimento, e que só é lembrado pontualmente, em meros roteiros turísticos e telenovelas impreparadas para falar destas gentes. É de louvar trabalhos académicos por antropólogas e arqueólogas que defenderam as suas teses de doutoramento sobre o povo de Castro Laboreiro.
Estou na cidade neste momento e começa-me a doer o peito de saudades da serra. Não vejo o dia chegar ao meu recanto encantado, onde renasci para uma nova vida. Agora, neste momento que te escrevo, penso na vida, em plenitude com minha companheira, envelhecendo ao ritmo natural da natureza, onde o carinho da minha amada me conforta das dolorosas horas de escrita. Sim, porque a escrita também é um ato sofrido, onde sai cá para fora todas as angústias e medos que me abalam em certas histórias e relatos reais. A morte não me aflige, quando a vida é vivida com saúde e sentido de solidariedade com os seus intervenientes. Quero deixar um testemunho de sentimentos pela natureza que me faz mover. Passar por esta vida como se nada tivesse acontecido, seria uma grande miséria de espírito. 
 
Excerto
In "A Carta"
Quito Arantes