quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

"A Carta nas Quatro Estações"

Os últimos dois dias foram de trabalho com a editora, e revisora de texto, preparando o meu novo livro, que deve sair a público no final deste inverno, um pouco penoso, em relação ao tempo que faz lá fora. Ontem e hoje nevou quase sem parar, e estou novamente isolado no meu canto, na brancura que caracteriza a paisagem nevada.
Senti que estava em falta contigo, amiga. Então resolvi fazer um chá de limão e escrever-te mais um pouco, para dar continuação a esta “Carta nas Quatro Estações”.
Como não tenho horas definidas para o meu trabalho e mesmo para dormir, e como de madrugada é quando me sinto mais à vontade para escrever, digo-te que os últimos dias não tem sido fáceis. Tenho-me sentido um pouco enclausurado no meu espaço, mas também sem vontade de sair no meio de tempestades, por vezes, de neve. O inverno serrano é mesmo assim, convida a estar em casa, com a lareira acesa, lendo, escrevendo, refletindo sobre a vida que levamos.
Esta vida de escritor não é de nada fácil, posso dizer que de momento, não dá nem para a sopa. Não fosse a minha pequena pensão, e passaria fome, com certeza. Um escritor anónimo, do público em geral, é muito difícil de se afirmar, se não tiver uma ajuda da comunicação social. Isso, eu tenho plena consciência, mas para mim, o meu legado está aí, com obra publicada. Vou continuar o meu caminho, com todos os sentidos à flor da pele, não me importa se um dia vou cair na rua, ou numa cama de um hospital, ou mesmo num lar de terceira idade. Quero viver a vida que me é justa. Trinta anos de trabalho por conta de outrem não foram suficientes para me darem, um descanso merecido, não pelos anos de trabalho, mas pelo que contribui para este país descaracterizado, sem futuro histórico. Um país à espera de D. Sebastião, onde não faltam os velhos do Restelo. Mesmo assim ainda me sinto um privilegiado na minha situação de vida real, em comparação com muita gente que perdeu tudo, devido à ambição de ser rico. Nunca fez muito sentido, para mim, querer muito além daquilo que posso usufruir no dia-a-dia, mas ver resultados do meu trabalho, que me desafogue a vida, lá isso, luto todos os dias, por uma melhor vida em qualidade.
 O ar que respiro ainda é meu, e com esse e os montes e vales da serra, o caminhar nos trilhos da floresta, o verde dos carvalhais, vidoeiros, e todos os ribeiros de vem dos montes e me refresco das longas caminhadas, serão sempre uma conjugação do ar que respiro da montanha. 

Capítulo XXV
Excerto
In "A Carta nas Quatro Estações"
Quito Arantes