terça-feira, 21 de janeiro de 2014

" A Carta nas Quatro Estações "

Hoje acordei como é quase habitual, por volta das 4:30 horas, com vontade de escrever mais umas linhas, desta prolongada carta das quatro estações. No fundo, fica o registo de certos pormenores da minha vida diária, mas mesmo assim, não quero que esta carta se torne um simples diário descritivo de tarefas. Quero que saibas, amiga, que toda ela contém sentimentos e sensações vividas no alto da serra, por onde nem toda a gente sabe o que se passa no meu caminhar pelas calçadas portuguesas centenárias, onde me deslumbro no inesperado. Guardo o silêncio da natureza, transformado por vezes em chamamentos ao concílio da alma, ao sentir o mundo além do consumismo cosmopolita.
Ontem recebi uma vista da D.ª Maria, que gentilmente, me veio trazer oferendas da terra. Uma senhora muito simpática e humilde que quer sempre o meu bem, preocupando-se que nada me falte de comer. Tivemos uma conversa à mesa da sala, muito agradável, e eu por fim, como não lhe podia retribuir grande coisa, ofereci os meus serviços de carro, para alguma coisa que quisesse. Tenho pouco para oferecer a esta gente tão afável, mas sempre posso oferecer, um serviço personalizado; uma fotocópia, um fax, ou e-mail, ou mesmo até uma ida à farmácia.
 Não me importo de ser moço dos recados desta boa gente, e faço isso com orgulho, porque sei que precisam, e evita-se assim outras despesas desnecessárias.
Ainda ontem, o meu grande amigo Tio Franklin, “Chefe da aldeia”, andava preocupado comigo, pois não via o meu carro em lado nenhum, depois da grande nevada que cobriu o lugar com um manto de neve, e que se prolongou por três dias. Os meus vizinhos sabem que sempre que me ausento por mais que um dia do lugar, os aviso, para assim estarem sossegados. Gosto do apreço que têm por mim. Fazem-me sentir uma pessoa desejada no seio deles.

Agora que a neve se desvanece aos poucos, fica a frescura das águas, irrigando os campos férteis das vizinhanças, que aguardam bons dias de primavera para as sementeiras.

Capítulo XXIII
Excerto
Quito Arantes